Educação financeira vira prioridade diante do Brasil endividado
Robson Gimenes, CEO da Shield Bank, explica por que saber lidar com dinheiro se tornou uma questão de sobrevivência financeira
A educação financeira deixou de ser apenas um diferencial e passou a ser uma necessidade real para os brasileiros. Em um cenário de juros elevados, crédito caro e alto nível de endividamento das famílias, entender como administrar o próprio dinheiro se tornou uma das habilidades mais importantes da atualidade. Em 2026, os dados econômicos mostram que o Brasil vive um momento em que a organização financeira pessoal e empresarial deixou de ser apenas planejamento e passou a ser uma estratégia de sobrevivência financeira.
De acordo com dados recentes, cerca de 76% das famílias brasileiras iniciaram 2026 endividadas, mesmo com aumento de renda e mercado de trabalho aquecido, o que mostra que o problema não está apenas no quanto se ganha, mas principalmente em como se administra o dinheiro. Além disso, aproximadamente 79% das famílias possuem algum tipo de dívida, reforçando que o endividamento se tornou estrutural no país.
Para Robson Gimenes, CEO da Shield Bank, esse cenário revela um problema cultural e educacional. Segundo ele, o Brasil nunca ensinou as pessoas a lidarem com dinheiro de forma estratégica.
“A educação financeira não começa quando a pessoa está endividada. Ela começa quando a pessoa recebe o primeiro salário. O problema é que o brasileiro aprende a trabalhar, mas não aprende a administrar o dinheiro que ganha”, explica.
O impacto dessa falta de educação financeira aparece diretamente nos números da inadimplência. Em janeiro de 2026, o Brasil registrou um dos maiores níveis de inadimplência da história, com dezenas de milhões de brasileiros com o nome negativado e dificuldades para pagar dívidas. O cartão de crédito continua sendo o principal responsável pelo endividamento das famílias, representando mais de 85% das dívidas dos brasileiros.
Além disso, o problema se agrava com os juros. No Brasil, os juros do crédito rotativo do cartão podem ultrapassar 400% ao ano, um dos mais altos do mundo, o que faz com que pequenas dívidas se transformem rapidamente em grandes problemas financeiros.
Segundo Robson Gimenes, esse é um dos pontos mais perigosos da falta de educação financeira: o uso errado do crédito.
“O crédito não é o problema. O problema é a forma como as pessoas usam o crédito. O cartão de crédito deveria ser uma ferramenta de organização e não uma extensão da renda. Quando a pessoa usa o cartão como se fosse salário, ela entra em uma bola de neve financeira”, afirma.
Outro dado que chama atenção é o nível de comprometimento da renda do brasileiro com dívidas. Em muitos casos, grande parte da renda mensal está comprometida com pagamentos de empréstimos, financiamentos e cartão de crédito, o que reduz a capacidade de investimento e aumenta o risco financeiro das famílias.
Esse cenário mostra que o problema financeiro no Brasil não está apenas na falta de dinheiro, mas na falta de planejamento. Muitas pessoas até possuem renda, mas não possuem controle financeiro.
A educação financeira entra exatamente nesse ponto, ensinar planejamento, organização, controle e estratégia. Não se trata apenas de economizar, mas de saber usar o dinheiro de forma inteligente.
De acordo com estudos sobre alfabetização financeira, o Brasil ainda apresenta um nível considerado baixo de educação financeira, com média de conhecimento financeiro em torno de 60 pontos em uma escala de 0 a 100. Isso significa que grande parte da população toma decisões financeiras sem conhecimento adequado sobre juros, crédito, investimento e planejamento.
Para Robson Gimenes, a educação financeira precisa ser vista como uma ferramenta de liberdade.
“Quando a pessoa aprende a cuidar do dinheiro, ela ganha liberdade. Liberdade para escolher, para investir, para empreender e até para mudar de vida. A falta de educação financeira aprisiona as pessoas em dívidas e limita o crescimento”, explica.
Em 2026, o cenário econômico exige ainda mais atenção. A inflação deve permanecer próxima de 4%, e o crescimento econômico projetado para o país gira em torno de 1,8%, o que indica um crescimento moderado e exige ainda mais planejamento financeiro por parte das famílias e empresas.
Além disso, o crédito no país continua crescendo, com aumento de mais de 9% nas concessões de crédito em 12 meses, o que mostra que as pessoas estão pegando mais empréstimos e financiamentos. O problema é que muitas vezes esse crédito não é utilizado de forma estratégica, mas para cobrir despesas do dia a dia, o que aumenta o risco de endividamento.
Robson Gimenes explica que a educação financeira precisa ser dividida em etapas e não apenas focada em economizar dinheiro.
“O primeiro passo é organização financeira. O segundo é eliminar dívidas. O terceiro é construir reserva de emergência. E só depois disso a pessoa deve pensar em investir. O erro de muitas pessoas é querer investir sem antes organizar a base financeira”, afirma.
A reserva de emergência, inclusive, se tornou uma das principais recomendações financeiras para 2026. Em um cenário de instabilidade econômica, juros altos e custo de vida elevado, ter uma reserva financeira pode ser o que separa uma pessoa do endividamento.
Dados mostram que grande parte dos brasileiros não possui reserva financeira suficiente para lidar com imprevistos, o que faz com que qualquer emergência como desemprego, doença ou gasto inesperado, se transforme em dívida.
Segundo Robson Gimenes, a educação financeira também precisa chegar às empresas, principalmente às pequenas e médias empresas.
“Muitas empresas quebram não porque não vendem, mas porque não têm gestão financeira. A empresa fatura, mas não tem lucro. E isso acontece por falta de controle de fluxo de caixa, precificação errada e falta de planejamento financeiro”, explica.
O Brasil também enfrenta um aumento no número de empresas endividadas, o que mostra que a educação financeira não é apenas uma necessidade das pessoas, mas também dos empresários.
Outro ponto importante da educação financeira em 2026 é o investimento. Com juros ainda elevados, a renda fixa continua sendo uma opção importante para quem quer começar a investir com segurança, enquanto a renda variável pode ser uma alternativa para quem busca maior rentabilidade no longo prazo.
Mas Robson Gimenes faz um alerta, investir sem educação financeira pode ser perigoso.
“Hoje muitas pessoas querem investir para ganhar dinheiro rápido, mas investimento não é aposta. Investimento é estratégia, planejamento e visão de longo prazo. Sem educação financeira, a pessoa pode perder dinheiro em vez de ganhar”, afirma.
A tecnologia também tem transformado a forma como as pessoas lidam com dinheiro. O crescimento dos bancos digitais, do Pix e das plataformas de investimento facilitou o acesso aos serviços financeiros, mas também exige mais responsabilidade do usuário.
Hoje, cerca de 90% da população brasileira possui conta bancária e acesso a serviços financeiros digitais, o que mostra que o acesso ao sistema financeiro aumentou, mas o conhecimento sobre como usar esse sistema ainda não cresceu na mesma proporção.
Isso significa que o desafio de 2026 não é apenas dar acesso ao crédito, mas ensinar a população a usar o crédito de forma inteligente. Para Robson Gimenes, a educação financeira deveria ser ensinada nas escolas.
“Se a educação financeira fosse ensinada nas escolas, o Brasil teria uma geração muito mais preparada para lidar com dinheiro. A gente aprende matemática, português, história, mas não aprende a cuidar do próprio dinheiro, que é algo que todo mundo vai precisar fazer a vida inteira”, afirma.
O cenário econômico de 2026 mostra que a educação financeira deixou de ser um tema apenas para especialistas e passou a ser um tema social. O alto nível de endividamento, a inadimplência crescente e o uso excessivo de crédito mostram que a falta de planejamento financeiro afeta diretamente a qualidade de vida das pessoas.
Mais do que aprender a economizar, a educação financeira ensina a construir patrimônio, ter segurança financeira e tomar decisões mais conscientes. “O dinheiro, quando bem administrado, vira uma ferramenta de crescimento. Quando mal administrado, vira uma fonte de preocupação. A educação financeira existe para transformar o dinheiro em um aliado e não em um problema”, conclui Robson Gimenes.



Publicar comentário