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Consumidor precisa atentar para tratamento com canetas emagrecedoras

Consumidor precisa atentar para tratamento com canetas emagrecedoras

Fármacos originalmente desenvolvidos para diabetes mostram eficácia relevante na perda de peso, com respaldo de estudos clínicos internacionais

O avanço dos medicamentos injetáveis para tratamento da obesidade tem alterado a abordagem clínica do excesso de peso no Brasil. Inicialmente desenvolvidas para o controle do diabetes tipo 2, essas substâncias passaram a ocupar espaço relevante na prática médica após demonstrarem impacto consistente na redução ponderal. 

Esses medicamentos agem principalmente nos receptores de GLP-1 e, em alguns casos, também de GIP. Eles aumentam a sensação de saciedade, reduzem a ingestão alimentar e influenciam o metabolismo, favorecendo a perda de gordura corporal. Estudos publicados em periódicos como o The New England Journal of Medicine demonstram que agonistas do receptor de GLP-1, como a semaglutida, podem promover redução de até 15% do peso corporal em cerca de 68 semanas. Pesquisas mais recentes com moléculas de dupla ação, que combinam GLP-1 e GIP, indicam perdas que podem se aproximar de 20% a 25% em um ano de tratamento, quando associadas a mudanças no estilo de vida.

No Brasil, a regulação desses medicamentos está sob responsabilidade da Agência Nacional de Vigilância Sanitária. A autarquia determina que a dispensação ocorra mediante prescrição médica, com retenção de receita em determinados casos. 

Para o médico gastroenterologista e cirurgião geral Mauro Lúcio Jácome, a exigência reforça a necessidade de acompanhamento clínico. “É fundamental procurar um médico. O tratamento deve ser individualizado e acompanhado de forma periódica, com ajustes de dose e monitoramento de eventuais efeitos adversos. A aplicação costuma ser semanal, com escalonamento gradual das doses, estratégia que reduz desconfortos gastrointestinais e outras intercorrências”, explica.

O médico ainda destaca que a terapia não deve ser vista como solução isolada. “O medicamento precisa estar associado a um cuidado multidisciplinar, com orientação nutricional e prática regular de atividade física. A proposta é tratar a obesidade como doença crônica, e não apenas induzir uma perda rápida de peso. Diretrizes de entidades como a Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e da Síndrome Metabólica e a World Health Organization, por exemplo, reforçam que intervenções farmacológicas devem integrar um plano terapêutico mais amplo”, completa Dr. Mauro.

A possibilidade de manipulação em farmácias também suscita dúvidas. “A legislação brasileira permite a manipulação de determinados medicamentos, inclusive aqueles com proteção industrial, desde que sejam utilizados insumos farmacêuticos ativos autorizados pela Anvisa e que a farmácia esteja regular perante a vigilância sanitária. Manipulação não é sinônimo de clandestinidade. Pelo contrário. Mas o que não pode ocorrer é a produção ou comercialização fora dos padrões legais e sanitários”, afirma.

Entre os pontos de atenção está a interação com anticoncepcionais orais. Como os agonistas de GLP-1 retardam o esvaziamento gástrico, pode haver alteração na absorção de medicamentos administrados por via oral. “Existe risco de redução da eficácia de contraceptivos orais em algumas situações. Por isso, mulheres em uso dessas medicações devem consultar também o ginecologista para avaliar a necessidade de métodos alternativos”, orienta o médico.

Entretanto, ao longo do tempo o medicamento pode passar por uma ineficácia e perder parte do efeito. “Estudos indicam que parte dos pacientes pode apresentar estabilização do peso após fase inicial de maior redução. Nesses casos, ajustes terapêuticos ou associação com outras estratégias podem ser considerados. Há situações em que o organismo se adapta. O acompanhamento médico permite avaliar novas combinações ou redefinir metas”, finaliza Dr. Mauro.

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